top of page
Buscar

À luz, João Vicente

  • Foto do escritor: Mariana Souza
    Mariana Souza
  • 15 de fev. de 2021
  • 3 min de leitura

Atualizado: 10 de out. de 2021

Eu não sabia nada sobre isso [transexualidade], não tinha a mínima ideia. Tinha aquele sentimento de que eu era um homem, me sentia como um homem, me via como um homem, mas não sabia o que era aquilo. Não sabia o que estava acontecendo. Eu tinha 18, 19 anos.


Assisti o Psicose, achava que eu era tipo o Norman Bates, se vestindo como a mãe; era tipo o Beiçola, achava que eu era meio maluco. Não tinha nem sentido aquilo: como eu era de um jeito, mas me sentia de outro? Achava que isso não existia, que só existia na minha cabeça. Achava que estava ficando louco.


A cada vez que o tempo passa, parece que vai ficando pior a convivência num corpo que você acha que não é seu. Até que um dia, no trabalho, aquilo estava me consumindo muito. Aí eu fui pesquisar. Não sabia de nada, não sabia de nomes, termos... de nada. A minha pesquisa no Google não esqueço até hoje: “como virar um homem”. Eu pesquisei isso porque não sabia de nada.


Achei algumas coisas, fui lendo, até que cheguei nos termos "transgênero" e "transexual". Comecei a procurar isso no Youtube, porque só lendo eu não estava conseguindo assimilar. Pensava que ainda não estava certo, que não podia ser verdade, que as pessoas não podiam ser assim. Achei youtubers trans, fui vendo eles contarem a experiência de vida deles e fui pensando "nossa, comigo também foi assim!", que existe pessoas como eu e que está tudo bem também.


Tem essa preocupação de "meu Deus, e agora? Como assim as pessoas são desse jeito e eu sou de outro?". Na época eu ainda não podia procurar ajuda de psicólogo. Eu era muito desesperado em tentar me encaixar nas coisas, em tentar participar, depois disso fui ficando bem comigo. O psicólogo ajuda [atualmente], não sofri mais.


A Larissa [namorada] estava na parte em que comecei a entender o que estava acontecendo. A gente se conheceu no cursinho, bem na época de descoberta, na parte em que tudo estava indo para o seu devido lugar. Ela sempre entendeu, sempre deu apoio e sempre buscou saber, estudar e ver as coisas; procurar coisas para fazer eu me sentir melhor. Se você perguntar as coisas ela deve saber melhor do que eu, é uma expert em trans.


CIRURGIAS


Tem pessoas que estão felizes com o corpo. No meu caso, não estou. Olho no espelho e tenho vontade de morrer.


Penso em fazer só mastectomia. Desejo fazer em um ano e meio, por aí. Quero usar hormônio antes, pois vai ajudando a diminuir a cicatriz da cirurgia.


Primeiro tem etapas: você precisa fazer um tratamento com psicólogo. Isso [tempo do tratamento] depende de psicólogo para psicólogo. Tem uns que ficam dois anos, um ano, ou até seis meses tratando para dar um laudo e você passar por um psiquiatra para ter outro laudo para o endocrinologista, que vai fazer uma série de exames e passar para parte hormonal. Eu estou na fase do psicólogo ainda –, ele me passou recentemente o contato de uma psiquiatra.


A minha expectativa é ficar um gostoso, quando começar a crescer as barbinhas e mudar a voz.


FAMÍLIA


Meus pais não sabiam lidar muito bem com essa situação. Não consigo conversar sobre. Tentam tocar no assunto sempre, lembrar dessas histórias de quando eu queria ser chamado de Marcelo, queria ser tratado no masculino... Dá pra ver que eles querem entender, mas não sabem muito bem, não sabem o que falar.


Não tenho medo de nada. Só não sei como começar a falar sobre isso, como explicar, não sei como lidar com a situação muito bem ainda. O problema sou eu, na verdade. Não sei como conversar com eles sobre isso, porque falar pra uma pessoa mais jovem, que sabe das coisas, é diferente do que falar pra uma pessoa que tem 69 anos. Acho que é mais complicado. Então eu tento, fico escolhendo palavras quando penso no assunto, o que tenho que falar... eu fico pensando muito e acabo deixando de fazer.


Mas sempre mostram que apesar de tudo, está tudo bem. Sempre dão apoio pra gente [João e Larissa] em qualquer situação. Eles são bem abertos, sinto que eles querem aprender as coisas, querem conhecer mais.

Posts recentes

Ver tudo
Quando a amizade é a melhor terapia

Relatos de participantes do Reatar, grupo de apoio do Hospital das Clínicas, mostram a realidade de indivíduos soropositivos Por Izabela...

 
 
 

Comments


bottom of page